quinta-feira, 21 de agosto de 2014

XXVIII - Amor Obscuro

| |



– Acabou! Não posso mais, Nicholas... - E é a única coisa que consigo dizer antes de voltar a chorar.
– Selly, o que foi? - Nicholas sussurra e começa a ofegar. – O que eu fiz? Foi por causa da presença da Elena na festa? Foi.. - Ele diz sem parar mas o interrompo.
– Nicholas, eu simplesmente não posso mais continuar nesse tipo de relação. É muito para mim. - Digo em prantos. – Não dá mais.. - Sussurro, olhando em seus olhos que estão transbordando tristeza. Seco meu rosto, inutilmente pois as lágrimas continuam a cair incessantemente e respiro fundo. – Eu quero mais para minha vida. Não posso ser o que você quer. Eu tentei, eu juro mais não dá mais para fingir que tá tudo bem, quando não está. Estou me sentindo mal desde ontem quando você me levou para aquele quarto e hoje.. - Paro e levo a mão no rosto, chorando com as lembranças vívidas em minha memória. Tomo fôlego e volto a encará-lo, que se encontra com o semblante apreensivo, à espera de minhas palavras. – Hoje foi horrível, revivi coisas que me machucou muito no passado e eu não quero mais reviver esse episódio em minha vida. - Digo num sopro só.
Ele me olha atentamente, com sua testa franzida e parece está pensando em algo muito triste, pois seu semblante mudou de apreensivo para desolado e seu olhar torturado me parte o coração.
– Que lembranças são essas? - Pergunta e parece está com medo de minha resposta.
Ai caramba! E agora?! Conto ou não conto para ele todo meu passado podre? Um medo me bate só de imaginar o nojo que terá de mim ao saber. Respiro fundo e resolvo direto ao ponto.
– Nicholas, esquece.. Só me deixa ir ok? É só você trazer a rescisão do contrato que eu assino e vou embora, ta legal. - Digo, secando meus olhos e tento me levantar, quando suas palavras me atinge em cheio.
– Eu não quero que você vá. - Ele diz com dor em sua voz.
Fico de joelhos na cama, frente a frente com ele e olhando em seus olhos.
– Eu não quero ir.. - Sussurro e mais uma vez as lágrimas descem incontrolavelmente. Seguro seu rosto em minhas mãos e aproximo meu rosto, encostando nossas testas e olhando-o profundamente nos olhos. – Você sabe o que fazer, não me deixe ir. - Suplico num fio de voz.
Ele permanece calado, mas sei que está sentido com minha partida, pois vejo no fundo de seus olhos a sua alma atormentada. De repente sinto uma onda de esperança encher meu peito. Separo nossas testas e seco minhas lágrimas e volto a segurar seu rosto.
– Olha, não precisa ser assim, podemos ficar juntos ainda, baby! Eu sei que você tem seus traumas, eu também tenho os meus. Podemos mudar nossa relação e superar nossos traumas juntos. - Digo e ele arregala os olhos. Imediatamente leva as mãos até as minhas e as tira de seu rosto, afastando-se de mim.
– Selena, não! - Diz com pavor.
''Selena, não!'', '' Selena, não!''.. suas palavras ecoa em minha mente, fazendo meu coração se despedaçar pouco a pouco. Sinto como se estivessem colocado meu coração em uma maquina de costura e o perfurasse milímetro à milímetro. Abaixo minha cabeça e deixo as lágrimas rolarem novamente.
– Selly, olha só para você. Olha o que eu fiz com você! - Diz. Levanto minha cabeça para olhá-lo e encontro seu olhar horrorizado. – Não podemos ficar juntos. Não desse jeito que você quer. Eu só iria acabar com você pouco a pouco. - Diz amargamente. Ah, Nicholas.. não vê que já está acabando comigo?! Penso comigo. – Não sei amar ninguém, não tenho um coração. Olha como eu deixei você, mesmo se ter a intenção. - Cospe as palavras e respira fundo. – Eu sou um fodido, Selly. Sou cheio de demônios. - Diz e me olha entristecido.
– Você não é o único. - Resmungo amargamente. – Também tenho meus demônios, Nicholas. - Digo.
– Eu já notei. Você não quer me contar? - Pergunta, cautelosamente.
– Pra quê? Não tem importância isso. - Cuspo as palavras em cima dele, devido ao nervosismo que cresce cada vez mais, ao pensar em contar para ele meu passado.
– Claro que tem importância, Selly. Você saiu daquela sala transtornada. Eu preciso saber em que eu te afetei. - Diz, com a testa franzida.
Fecho meus olhos e tento controlar minha respiração acelerada. Ele tem o direito de saber. Não posso mais esconder isso dele, quando atingimos um nível insuportável. Ele precisa entender meus motivos para eu não continuar nessa relação. Tomo mais uma lufada de ar e tento criar coragem para contar-lhe tudo. -É agora ou nunca!- Meu subconsciente diz na tentativa de me encorajar. -Que ele não fique com nojo de mim, por favor meus Deus.- Peço mentalmente. Solto o ar numa lufada e resolvo expor tudo.
– Minha mãe sempre foi uma pessoa romântica, que dá tudo para vivenciar uma paixão enlouquecedora. Com isso teve vários amores e paixões. O primeiro foi meu pai, que nunca conheci, mas segundo ela diz foi um amor puro e bonito que ela viveu, apesar de seus contratempos. Nunca puderam ficar juntos, o porque ela não me contou. Só me disse que assim que meu pai sobre de minha existência, a abandonou. - Abro meus olhos e Nicholas está estático, observando cada palavra que digo. – Depois veio Raymond Gomez, me pai adotivo. Assim que se conheceram, se apaixonaram e se casaram quando eu tinha quatro anos. Ray exigiu em dar-me seu sobrenome e me criar como seu eu fosse sua filha de sangue. Eu o considero meu verdadeiro pai. O homem a quem devo o que sou hoje. - Sorrio ao lembrar-me de Ray. Que saudades dele!
– Nove anos depois o casamento não estava mais dando certo, então ele e Carla, minha mãe, resolveram se separar. Um tempo depois ela conheceu Mark Sullivan e se apaixonou perdidamente por ele. - Meu sorriso se desfaz ao lembrar do seu terceiro marido. – Se casaram e se mudaram para Flórida. Eu preferi ficar morando com meu pai, pois não queria abandoná-lo e já estava acostumada morar em Montesano, também tinha o colégio. Então eu combinei que ira visitá-la nas férias e assim eu fiz. Nas férias fui para a Flórida, matar as saudades que eu estava dela. Então assim que cheguei e como a viagem tinha sido cansativa, eu fui descansar um pouco no quarto em que ela tinha feito para mim e acabei dormindo. Não sei quanto tempo eu dormi, mas despertei rapidamente ao senti uma mão em meu rosto, tapando minha respiração. Instantaneamente comecei a me debater com a falta de ar e consegui me desvencilhar de Mark e sua mão. - Olho para o nada, perdida nas lembranças. – Seu sorriso erá diabólico, seu olhar, tudo era nojento nele. - Tremo com a lembrança. – Eu tentei correr, mas ele foi tão rápido, me prendendo embaixo de si, assim que cai no chão. Eu só tinha treze anos e ele era bem forte. - Falo com a voz embargada, devido ao nó que se formou em minha garganta. Respiro fundo e olho para Nicholas, que está com os olhos arregalados.
– Eu gritei por socorro, esperneei, chorei, implorei para ele me deixar em paz, mas nada adiantou. - Sinto as lágrimas abundantes banharem meu rosto. – Só consegui deixá-lo com mais raiva ao ponto de me surrar. Depois de se satisfazer me batendo, ele.. - Fecho meu olhos – Ele me tomou a força, com toda brutalidade do mundo, roubando minha inocência, minha dignidade, minha pureza.... - Abaixo minha cabeça e deixo o choro sair sem classe alguma. Depois de um momento engulo meu choro e levanto a cabeça, encontrando um Nicholas pálido. – Foi horrível! - Digo e ele permanece calado. Tomo folego para continuar e tento secar minhas lágrimas inutilmente. – Ele fugiu um pouco antes de minha mãe chegar. Assim que ela me viu eu contei tudo para ela. Fomos a delegacia mais próxima e registramos a queixa, fiz corpo de delito, fui exposta de todas a maneiras possíveis. Conseguiram prender ele rapidamente e depois aconteceu tudo muito rápido: estranhamente ele foi à julgamento e condenado numa rapidez extrema. Geralmente as audiências demoram, mas esse não foi o caso. Depois desse episódio, fiquei em depressão por uns meses, Ray me levou à vários psicólogos mas não consegui me abrir com nenhum, até que um deles com muito esforço, conseguiu fazer com que eu me abrisse. Tivemos muitas consultas, ele me aconselhou bastante a não entrar em pânico com relacionamentos, a não fechar meu coração para o amor. E hoje naquele quarto, presa com aquela mordaça, sem poder falar um ai que seja, foi muito para mim Nicholas. Tudo veio como uma avalanche sobre mim. Em um determinado momento, eu me senti transportada para aquele dia. Era como se não fosse você ali e sim o Mark. E eu percebi que é isso que eu quero. Quero muito amor, quero e preciso ser amada, desejada, quero sair com alguém e rir de coisas tolas, quero fazer amor a noite toda e poder tocar no meu parceiro. Quero flores e corações, é assim como você julga né. Sei que deixou claro que não é isso que procura, mas agora entende o porque eu não posso continuar com essa relação ? - Pergunto aos prantos.
– Me perdoa, baby? - Nicholas diz, visivelmente arrependido. Sua voz esganiçada denuncia seu choro contido. – Eu não queria fazer com que você revivesse esse passado. Me perdoa? Por favor. - Ele implora com os olhos em uma tristeza só.
– Tudo bem. - Digo enquanto passo a mão pelo seu rosto. – É o seu mundo, eu entrei sabendo como seria. Achei que conseguiria viver esse tipo de relação. Mas ... - Sorrio sem alegria alguma. – E também você não sabia de nada. - Digo e ele empalidece, abaixando a cabeça em seguida. Ôou, isso não é nada bom! – Nicholas, você não sabia não é ? - Pergunto, temendo sua resposta.
Ele levanta a cabeça e me olha por um momento. De repente levanta da cama e sai do quarto. Fixo meu olhar na porta, embasbacada. Aonde será que ele foi ? E porque não respondeu? Sinto um calafrio percorrer minhas costas e me aperto mais no edredom. Instantes depois, Nicholas entra no quarto com duas pastas em mãos. Estende uma pra mim e eu a pego. Congelo ao ver meu nome escrito em letras garrafais na mesma. Abro a pasta e não posso acreditar no que acabo de ver. É um relatório com todos os meus dados, principalmente o abuso que sofri. Olho horrorizada do papel para Nicholas e de Nicholas para o papel, várias vezes incrédula do que acabo de descobrir.
– Desde quando você sabe disso? - Sussurro sofredoramente.
– Desde a primeira vez que te vi, naquela loja. - Diz.
Ele permanece parado a minha frente, em pé na beirada da cama. Impulsivamente jogo a pasta em cima dele. Ele me olha pasmo, com os olhos arregalados.
– Como você pode .. - Choramingo. – Você sabia o tempo todo e mesmo assim fez isso comigo. - Digo, visivelmente sentida. – Meu Deus! Você ... você .. - Balbucio as palavras, incoerente do que dizer.
Levo as mãos na cabeça, em desespero. Como ele pôde ser tão cruel a esse ponto? Como ? Sinto-me desconfortável na presença dele, uma falta de ar se apossa de mim e começo a ofegar desesperadamente em busca de ar. Olho de um lado para o outro, querendo sumir, correr para onde não haja ninguém.
– Selly, calma. Eu posso explicar. - Diz.
– Explicar o que? - Grito. – Hein? O que o Senhor Nicholas Jonas vai explicar? - Cuspo as palavras, fuzilando-o com o olhar.
Ele me olha como se estivesse perdido.
– Eu.. - Ele para e abaixa a cabeça. – Só sei assim. - Diz baixinho.
– Eu não acredito que você disse isso. - Digo e solto uma risada de nervoso. – Você só sabe assim, essa é sua desculpa para tudo! Mas quer saber de uma coisa. - Ele permanece de cabeça baixa. – Nicholas, olhe para mim! - Ordeno e ele levanta a cabeça. Ao encontrar seus olhos , sinto meu coração se apertar. – Quando eu pergunto o porque você fez isso, não me refiro ao fato de você ser um sádico. - Ele franze a testa em confusão. – Não te culpo por me incluir nesse mundo, até porque eu aceitei esse relacionamento. Eu sabia o que estava fazendo quando assinei aquele contrato. Foi tudo de comum acordo. - Digo, com os lábios trêmulos.
– Então é o que ? - Pergunta cauteloso.
– Me refiro ao fato de você ter me perseguido, mesmo depois de saber do meu passado de merda. Tem que ser muito frio e calculista para armar situações, pois foi isso que aconteceu naquela livraria, não foi? - Pergunto e ele assente de cabeça. – Como você foi maquiavélico. - Me aproximo da beirada da cama, ficando frente a frente com ele. – Você sabia Nicholas, sabia que eu não ia resistir a você. Ficou me perseguindo, jogando seu charme irresistível. Você poderia ter evitado isso, poderia ter evitado que eu me apaixonasse por você. - Sussurro a ultima frase e respiro fundo. – Porque é isso que aconteceu. Eu estou perdidamente apaixonada por você Jonas! - Ele arregala os olhos, horrorizado, como se eu tivesse acabado de proferi seu sepultamento. – Eu te amo! - Digo num fio de voz.
– Selly, você.... não é possível. - Ele sussurra fracamente as palavras.
– É... é possível sim. - Abro os braços e grito. – Estou amando um sádico. - Rio nervosamente. – Que lindo né! - Digo com escárnio. – O único cara que eu consegui me entregar de corpo e alma é um sádico, que me perseguiu para me foder loucamente mesmo sabendo de meus traumas. - Digo e me jogo de costa na cama. Começo a gargalhar até que a névoa de choro abate sobre mim. Choro alto e sem me importar com o que ele irá pensar. – Eu te amo, Nicholas. Você é o único homem que eu deixei que me tocasse profundamente, depois do que houve. - Digo entre soluços.
– Selly, eu.. - Ele tenta falar mas o interrompo.
– Não precisa dizer nada. - Seco meus olhos e me sento na cama de frente para ele. – Eu já sei o que irá falar. Aliás, eu que estou errada né. Você deixou claro que não se apaixona por ninguém. Eu, burra que sou, tive esperança de que tudo mudasse. - Ele abaixa o olhar e mantém a boca em uma linha rígida. – Bem que Leila falou. - Sorrio sem alegria ao lembrar de suas palavras.
– Leila ? - Ele empalidece.
– Leila, sua ex submissa, Nicholas. - Ele olha sem graça. – Ou você achou que eu não tinha percebido. Aliás, eu estava me perguntando quando você iria me contar quem é ela. - Ele continua calado e assim faz com que eu solte uma risada sarcástica. – Nunca né. - Digo.
Ele prende meu olhar no seu, com uma tremenda desolação estampada neles e tenho certeza absoluta que reflete o meu olhar. Permanecemos assim por um longo tempo até que não aguento mais, preciso ir embora.
– É melhor eu ir agora. - Digo com a voz entrecortada e me levanto da cama.
– Selly, espera. - Ele pede e assim me viro para ele.
– Esperar o que Nicholas ? - Ele respira pesadamente e acho que vai dizer algo, mas para minha total frustração, desiste e me entrega a outra pasta com uma caneta presa na mesma. Abro e reparo que é a rescisão do contrato. Assino rapidamente as duas folhas e devolvo a pasta para ele, que me entrega uma das folhas. – Eu preciso arrumar minhas coisas, será que pode me dar licença? - Peço, sem encará-lo.
Solto a respiração, que nem sabia que estava prendendo, assim que ouço a porta se fechar. Seguro o choro e visto uma calça e uma blusa que pego em minha mala. Coloco um casaco por cima, pois a madrugada aqui em Seattle é sempre fria e calço minha sapatilhas.
Jogo tudo o que vejo pela frente que está espalhado pelo quarto dentro da mala rapidamente e a fecho. Amarro meus cabelos em um coque e sigo para a sala, com a mala. Encontro Nicholas parado observando a Space Needle pela grande janela da sala, que nos dá uma bela vista de Seattle. Fico parada, observando-o por um longo tempo até que sua voz ecoa pelo recinto.
– Está tarde. São 4h30min da manhã. É melhor ir quando amanhecer e Taylor te leva. - Ele diz sem desviar seu olhar.
– Eu prefiro ir agora e não precisa incomodar Taylor, vou de taxi. - Digo e ando em direção a porta. Ele se vira e vem em meu encontro, parando à minha frente.
– Eu levo você então. - Diz com a testa franzida.
– Não precisa. - Retruco.
– Não vou deixar você sair a uma hora dessas sozinha. - Ele rosna.
– Claro que não, né. O senhor controlador jamais permitiria isso. - Resmungo. Ele bufa e passa as mãos nos cabelos. – Eu prefiro ir sozinha, se não se importar. - Digo e ele parece entender o recado.
– Porra, Selly! - Fecha os olhos e bufa. – Vou chamar o Taylor. - Diz, já com os olhos abertos e sai, deixando-me sozinha na sala.
Instantes depois Nicholas aparece com um Taylor muito sério ao seu lado. Sigo para o elevador e Taylor me segue. Encaro Nicholas, que está parado no hall, me encarando fixamente. Sinto uma súbita vontade de chorar, mas me contenho por causa de Taylor. Olho pela uma última vez os seus olhos. Olhos que me despertaram uma enorme paixão e que nunca conseguirei esquecer.
– Adeus, Nicholas. - Sibilo.

– Selena. - Sussurra e assim as portas se fecham, deixando com ele meu coração dilacerado.

Comentários... :)



Creditos Angel

4 comentários:

  1. esse capitulo acabou com meu coração... posta mais

    ResponderExcluir
  2. Show de bola apessar desse orgulho besta de nick ter deixado ela ir

    ResponderExcluir
  3. ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus.
    Como o Nicholas deixou ela ir??
    Cara ela se abriu com ele, quando ele vai fazer o mesmo??
    Maratona plzzz

    ResponderExcluir